A morte e a Filosofia

by 4/04/2012 0 comentários
-Vou recorrer à simplória vastidão do tempo, gritou Lilhio ao ser sufocado pela dor. 

Quinze dias após a precoce morte de sua esposa, o tão falastrão Lilhio ainda não havia dito uma só palavra. 

Ninguém o julgou pelo silêncio tampouco tentaram entender, para eles a morte era a explicação. Mas será mesmo a morte explicação? Se de fato nascemos para morrer o que há para sofrer? 
Lilhio há dias buscava respostas para esses nada novos dilemas, contudo nada respondeu o que sempre se questionou, por quê? Teriam todos os seus anos de estudos filosóficos sidos em vão? Teria sua carreira acadêmica ilusão? Teria ele ganhado dinheiro sujo com suas palestras? Sem rumo a seguir, Lilhio permaneceu desfalecido sobre os já fedorentos lençóis.

Nada parecia animá-lo, nem mesmo seu mais fiel companheiro de eternas discussões conseguiu arrancar-lhe um suspiro que seja. Familiares e amigos íntimos apelaram para o bom e velho psiquiatra. Este prescreveu remédios que Lilhio insistia em não tomar – Para que? De nada vai adiantar me anestesiar a dor não vai passar, pensava ele. 

Como a maioria de nós, todos se deram por vencidos antes mesmo do sinal tocar. Ninguém, ou melhor, quase ninguém tentou entender os motivos de Lilhio para tamanha tristeza, a maioria queria resolver o assunto, como se o assunto fosse um problema qualquer, apenas mais uma morte não era para tanto, ele um filósofo deveria lidar melhor com a situação. Será que deveria mesmo? 

A sorte de Lilhio foi que sua mente, enfadada de tanto portar um só pensamento decidiu abrir conversa com o inconsciente:

 -Mas e o que dizia Mill sobre seu próprio corpo e mente, o indivíduo é soberano, não será você meu soberano e capaz de nos livrar de tal tristeza?

-Mill era um idiota, não entendia nada sobre a mente.

  -Quem sabe Anselmo é a resposta, basta pensar na sua esposa para saber que ela ainda existe. 

 -Anselmo era monge o que conheceu do amor?

-Com essa atitude não conseguiremos progredir, Heidegger uma vez disse que nós próprios somos entidades a serem analisadas.

-Quem precisa ser analisado é ele, como alguém em sã consciência se torna membro do partido nazista? 

 -Talvez então devêssemos nos inspirar em Espinosa e crer que Deus é a causa de tudo que existe, sendo assim ele tem o direito de terminar uma história quando bem entender.

-Coitado do Espinosa além de ter sido excomungado morreu de tuberculose. 

-Estou tentando ultrapassar os limites que nosso próprio campo de visão limitou e você só sabe rebater.

-Schopenhauer para cima de mim não! 

 -Já sei o que estamos fazendo, como uma vida irrefletida não vale a pena ser vivida, estamos tentando não pensar para não existir. É isso, não é?  

 -Querida mente, você como sempre, está racionalizando, conheço seu desejo de nos transformar em uma máquina.

 -É aí que você se engana só quero provar o que Epicuro afirmou que a morte não é nada para nós, por isso devemos seguir em frente. 

-Desta vez você não vai me ludibriar, sei bem que só o sofrimento nos torna humano e humano quero ser.

 -Sábio Unamuno, mas saiba você que não há nada fora do texto!

SS Martinelli

S²FM

Pela janela olhei, tulipas não encontrei. Pensei, Filosofei, Bloguei.