Conto: O amor em tempos de net

by 6/17/2013 0 comentários
Jovem e descompromissado, Júlio não era moreno, nem alto, mas era sim bonito e sensual. Sua foto no Facebook atraia pelos menos vinte novas seguidoras todos os dias. Acostumado com o assédio, nenhuma pulga foi para trás da orelha quando uma seguidora sem foto e sem amigos o adicionou.

Lola detestava rede social e sua melhor amiga sabia disso, contudo sua intuição de que Júlio era o homem do destino de Lola a fez criar uma página para a amiga mesmo assim. Semanas se passaram e a melhor amiga mantinha a página as escondidas abastecendo-a com as palavras e pensamentos “anti-normalismo” de Lola ao mesmo tempo em que acompanhava as noticias de Júlio.

Ele recebia milhares de curtir a cada publicação, mesmo nas mais bobas como “Fui”, a mulherada curtia como se fosse pensamento de Paulo Coelho.

No segundo mês administrando a página secreta, a melhor amiga se viu cansada, cheia de tédio e aos poucos foi abandonado a página de Lola e a ideia de ser cupido. Quando chegaram as férias, as amigas de malas de prontas seguiram para a estação de trem, seu destino: a praia.

Apesar de morarem na mesma rua e estudarem na mesma escola, estava cada mais distante o caminho do bonito e sensual da geek pensadora. E esse caminho ganhou ainda mais milhas e milhas de distancia quando a melhor amiga desistiu da tal página na rede social. Entretanto no livro sádico do destino tudo parecia dizer que no capítulo 6.321 estava sim escrito que esses dois jovens deveriam se cruzar. 

Na mesma noite da viagem de Lola, Júlio se aprontava para mais uma noite de farra. Tudo corria como o de costume até que ele teve que esperar pela carona do amigo na porta do prédio. Sem ter o que fazer, decidiu postar um comentário que comprova-se sua elevada autoestima. Segundos depois, noventa e nove por cento das mulheres em sua página haviam curtido e comprovado sua popularidade.

Ele poderia se dar por satisfeito se seu amigo chegasse logo e a badalação começasse, mas como disse antes o destino era outro e a demora do amigo o fez perceber a “não curtida” de seu comentário de uma certa garota chamada Lola. 

Ao clicar em sua página, Júlio percebeu que ela nunca havia curtido nada do que ele postava. Encafifado com a falta de interesse da garota em sua pessoa, ele entrou e fuçou em tudo que Lola, ou melhor, em tudo que a melhor amiga havia postado se passando por Lola na esperança de descobrir o motivo do desinteresse. 

Ele constatou que ela não tinha namorado, não era ausente do facebook, não era cega, não era feia, pelo contrário quando Júlio bateu os olhos em sua foto descobriu a beleza significativa e não conseguiu sair mais da página de Lola. Ele leu e releu todos os seus posts, curtiu todos, quando sua carona chegou, pela primeira vez  ele sentiu-se apaixonado. 

A sensação era tão boa que decidiu fazer seu coração nunca mais voltar ao normal, entrou no carro do amigo e pediu para ele deixa-lo na estação. 

Sem entender nada o amigo fez o que ele pediu e dez minutos depois Júlio estava na estação à procura de Lola. Foi a melhor amiga que o viu primeiro, sem qualquer dúvida de que Júlio estava ali atrás de Lola, com satisfação por ter postado esse último destino da amiga, ela virou-se para Lola e disse:
- Pega a minha passagem, o homem da sua vida vai precisar dela! Não dizendo quaisquer outras palavras, a melhor amiga seguiu em direção ao Júlio. Ao se aproximar dele apenas apontou para o local onde a amiga estava e rumou para a saída. 


SS Martinelli

S²FM

Pela janela olhei, tulipas não encontrei. Pensei, Filosofei, Bloguei.