O Mestre então, para aqueles que não abrem mão das mazelas, requisitou:

- Não vamos alertar o espírito que a mente está doente.


A todo momento

ele suplicava por ela,

ela ansiava por ele.

E ainda assim

Nenhum,

nenhum outro,

movia sequer um músculo.




Um dia,
  quando nada mais mudou,
      ela se perdeu dentro da própria casa.


O dia mais melancólico da semana
estava perto do fim.
Se caso tivesse saído dela,
já era quase hora de voltar para cama.
Coragem,
diriam aquelas pessoas
que nunca de fato entenderam o significado de domingo:
Domingo é a recapitulação mefistofélica de tudo não conquistado.
Ele não era exemplo de sabedoria, não era exemplo para quase nada, e ainda assim, se fez presente revelando o penhasco escondido atrás do fascínio quando, na hora próxima ao absoluto silêncio afirmou: “- O egoísta não vivi entre nós, ele faz de nós mais um entre ele”. 

O jovem de cabelos cor de sombra, pele macia, corpo esbelto sempre cheiroso, permeava pelas ruas chamando atenção de quem o mesmo belo admirava. Era despercebido que metade de seu olhar era para si mesmo. Mulheres bonitas cativavam sua atenção, desde que reconhecida era a veneração. Concurso destinado a poucas, o cobrador de ônibus, estava para ver em seu troco moeda de três reais se sua linha percorresse vazia de sorrisos e olhares chamegados.

Ilda, no ápice dos seus 16 anos sabia muito bem que da Venda da família até a sua casa, eram singelos cinco minutos de lenta caminhada, entretanto todo o dia esperava pelo 132/bairro sem dividir ansiedade com distinta causa. No dia almejado, embora ciente das jogatinas galanteadoras do estimado, decidiu permanecer no ônibus até o fim do percurso, não existia em seu coração outra coisa da mesma importância. Dedicada a receber atenção, ela piscava, suavemente arrumava os cabelos do lado esquerdo do rosto rosado, trançava as pernas ajustando com apenas dois dedos a altura da saia. 

O encantador admirava, não contemplava afinal, haviam outras ainda mais caprichadas para percorrer sua linha. Nada obstante, isso para ela já não era o bastante? Ao final do ponto, envoltos pelo crepúsculo, o jovem de nome Antoni, a fim de afagar ainda mais seu já avolumado ego, convidou a angelical e insistente menina da Venda para um passeio. Com monólogos sobre como ele era belo, eles caminharam pela praça, tomaram gelado de morango, sentaram perto do Ipê Amarelo. O passeio, arrebatador para ela, rotineiro para ele terminou comum, com o beijo descomplicado junto ao portão dos pais dela. Ilda, antes mesmo de passar a chave suspirava. Antoni, pouco dali, pasmo também suspirava, o esperado tornou-se a resposta para ser eternamente amado e ainda assim nunca exaurir a sede por procurar o amor. 

No curto tempo de apenas alguns meses, o casamento no papel estava rubricado. 

Ilda era bonita, ingênua, de família conceituada, totalmente devota a ele, um troféu para sempre na parede. Antoni era lindo, encantadoramente malicioso, de família trabalhadora, totalmente abençoada era, para ela uma conquista para sempre venerada. Tudo acertado com o senhor do destino, homem, mulher regando juntos as sementes cotidianas da vida. Outra vez um romance acertado. Não é disso que se faz a paz? Paz, a já não tão jovem Ilda não poderia estar mais distante de tal palavra, obcecada pelo marido incorporou a contradição, abandonou o honroso trabalho na Venda da família por horas empregadas na caçada das acariciadoras de ego do seu venerado, e no intervim, não aceitou tomar qualquer passo que não fosse abençoado pelo amado. 

A vida se fez assim, ele traindo, ela perseguindo, ainda que na bodas de Papel nasceram Tom e Cora, na bodas de algodão pouca alteração. Na bodas de lã, por nada além de bons cuidados morria Tom, na bodas de renda com mudança escassa de atitude chegava a vez de Cora. Na bodas de prata melancolia e a conduta perdurava, almoços, cafés da manha, jantares, a mesa de madeira puída, coberta pela toalha plastificada, recheada de comida e faltosa de todo tipo de satisfação. O provedor inglório, além de sua própria personalidade era desinteressado; A mãe de inanimados, vitimada, sugava a si mesma, o vácuo, nada animava o distinto, prantos, abraços que para ela pareciam desmantelados, toques impenetráveis, seu desejo era único, a atenção de quem tanto ela venerava. Na bodas de ouro, em companhia de outro evento da vida, ele que não era exemplo de sabedoria, não era exemplo para quase nada, escancarou, para o derradeiro da família, a grande egoísta. 


Vem,
Me socorre,
Tô perdida em ti.


Entardeceu
e a felicidade
por destino
efêmera
perseverou.


Vem dançar, que te conto o que é amar!
Alucinado,
Sem destino certo,
Ele corria alucinado.

Tudo começou
quando as palavras
perderam seus significados.

Eu te amo,
foi a primeira.

As demais,
Sem próximos segundos,
sucumbiram ao abismo.

As ressalvas,
Sem discussão 
dependiam tão e somente 
dela.


Aí então,

na contramão
do que o mundo aceitava,
tomada pela mesma dor
e cansada de não mais existir,
ela ressuscitou com modesta discrição
em uma tarde fria de segunda-feira.


E ela quando chegou a conclusão: - Ele nada sabe sobre o amor, abandonou as exigências e partiu professora!


Ela,
dia após noite chamava sua atenção

Enquanto um simples olhar salvaria todo o amor

Ele,
nem por míseros segundos se afastava da tela do celular.


O dia era como o hoje, segunda-feira chuvosa e para lá de tediosa, ele chegou a livraria na hora do almoço. Solitário, sua rotina era almoçar perto da livraria para depois passar o tempo folheando títulos desconhecidos.

Nada de diferente aconteceu hoje, exceto que inesperadamente, um livro sem capa, além do título alcançou seus olhos:

Não é sorrindo que alguns homens encontram o seu destino.

Meu eterno amor,
Sou eu, sou Você,
Nós,
Relapsos do silêncio
Doadores de sentimentos
Almas presentes no impulso
do maior arranjo do mundo:
A Felicidade.
Feliz dia dos Namorados +Alexandre Pinheiro de Almeida