Naquela tarde, após o caos, ela rogava pela paz quando foi surpreendida pela visita inquieta do Inconsciente: 
- Há tempos que te mando mensagens, mas você só visualiza. Agora, não me venha pedir conciliação, tô bem cansado da sua falta de ação.

Quando acabou de lavar a louça, decidiu que daquela vez tomaria o expresso sentada na varanda. 
Devaneando entre as tarefas que tinha que fazer e a vontade de ficar ali muito depois do café acabar, escutou a conversa da vizinha: - Você roubou mesmo o perfume dele? 
- Roubei amiga, ele tinha uma coleção, tava esbanjando....
A naturalidade na fala das duas, por mais um dia, justo esse dia, reafirmou sua  escolha de permanecer enclausurada.


Quando olhou no espelho, descobriu o motivo por nada mais fazer sentido, seus olhos haviam sido trocados.

Chovia e o céu me dizia: - é melhor roupa molhada do que furada.
O que disse o homem quando o Diabo disfarçado perguntou: - Preferes receber o amor ou receber seus lucros?

Parada, feito espantalho
o máximo que conseguia
era a companhia
do desditoso corvo.
Um dia resolveu que corria
suas pernas pouco sabiam que isso existia
Ela então caiu espalhando palhas pelo chão
Abatida, tentou levantar,
mais seus trapos desintegraram
Sem roupa, sem corpo sua alma ficou exposta.
- FINALMENTE, gritou o Corvo e concluiu: - AGORA TE LEVO DAQUI!







Era a terceira noite da virgília, o silêncio dominava. Ela, consumida pela falta de sono abriu a porta achando ser o banheiro, precisava jogar água no rosto, mas quando a luz entrou no recinto e revelou a grande cama perfuma, jogou-se sem titubear. O dia passou e ela descansou. No meio da noite, acordou com culpa na alma e mais que depressa voltou para a virgília esperando o desprezo dos demais vigilantes. No entanto, aparentemente ninguém havia notado sua ausência. Ela ficou aliviada e sorriu como criança arteira. Pouco tempo depois, viu-se inquieta, perdida em pensamentos conflitantes:  Ninguém sentiu minha falta... O que é mesmo que estou fazendo aqui? Acho que o melhor que faço é ir embora... 

- Sara, aqueles que fazem pelos outros, de fato nada fazem. Disse o mestre antes mesmo dela abrir os olhos.


Ela acordou com uma estranha dor no rosto
Seu olhar, não era mais castanho, era redondo
Domado estava por uma estranha consistência.
Ela sabia, estava perdida entregue como estátua.



 - Somos sempre os mesmos, e de vez em quando, tentamos o diferente.