O amor vem como ninguém
Assobiando canções
cessando sansões
Desnudando o espírito
Obstruindo o egoísmo
Isso
quando verídico
O amor vem como ninguém


Começou com um sorriso torto
Um olhar perdido
E rosto sem saber direito, desconcerto
A boca úmida afogava as palavras
No peito a aceleração fazia questão de ser notada
e de todo o resto o fôlego arrancava

Pífia
Sem carisma
Uma uva sem fruta
A vida na ponta da concha
prestes a ser surripiada feito pérola prateada

Desabei
Chorei
Acordei.


Todo final de tarde, ela sentava perto da velha persiana e mesmo sem removê-la do caminho, admirava a paisagem. Foi assim por muitas floradas. Até que em um dia comum, daquele que tudo parece estar em reprise, uma forte ventania sujeitou a abertura da janela e da parede mofada desenraizou a persiana amarelada. Naquele mesmo final de tarde, a paisagem, feroz, invadiu a morada daquela que nunca soube apreciá-la e dela despiu com rigidez a cortina da epiderme. O que sobrou, de tão amedrontada perdeu-se pelo ar. 


Quando deixamos as palavras presas, o mundo esquece que somos humanos.
Ele não veio com a cabeça feita
suas linhas estavam pontilhadas
na espera da meada nada perfeita
e de suas melhores gargalhadas.
Somos terra.
Farturas.
Em nosso mundo,
geram árvores, ervas e flores
até que uma fagulha derruba a euforia.
Somos queimas.
Estiadas.
Em nosso mundo,
um eterno decurso. 

Na beira da sórdida esquina
é possível sentir o mormaço
enquanto a alma frita
a mulher peleja.

Por um segundo, feche os olhos e preencha o coração com a sutileza do despertar uma flor.
Assim, como roupa furada,
fica simples trocar uma família
                         por uma nova parentada.



Em seus olhos,
a agressividade vazia como se transformação da noite para o dia fosse sem vida

E eu, 
entrego-me ao teu buraco negro, onde todas coisas são julgadas e por fim sou sugada

A grande aventura seria 
ignorar seu olhar e focar naquilo que fisiologicamente compartilhamos sem distinção, 

coração.
                                                                                                                               

Nos dias
buracos preenchidos
com raízes de
Drosera Rotundifolia
São devorados
enquanto o homem
permanece apavorado.



No vento
navego
entrego
minha semente
até encontrar na sua mente
terra fecundante.
Quando dizem que faltará algo

esse algo

como que de repente

se torna quase sagrado

e sua busca

mesmo que desnecessária

entrega-se ao obrigatória.



O mundo não abre portas. Apenas pequenas brechas, quando você sua vidraça não fecha.
Se o Amor é a resposta, mozão, eu sou a sua pergunta!
Um belo dia resolvi mudar já dizia Rita Lee
Mas eu, atenção não prestei
pouco sabia sobre mudar, é aventurar-se no eu incomum
buracos, socos e pontapés, quedas sem fim
tudo disfarçado de destino
a única sabedoria era a ausência de uma urna
para colocar o voto
se nasço ou permaneço no infinito
Que bonito
agora o ar que respiro
não é mais o seu, meu amigo
vou seguir minha própria utopia:
  • Onde não há amor, não há dor
  • Onde não há palavras, não há entendimentos
  • Onde não há iluminação, não há evolução
  • Onde não há consideração, não há obrigação




No rosto da minha avó, não estavam presentes somente marcas do tempo, não, o rosto da minha avó era preenchido de sofrimento. Como se no mundo não existisse o verde e o florido, e sim a predominância da cor de terra queimada.

Nos almoços de família, sua única preocupação eram as comidas no fogão, a batata assada de sabor inestimável arrancava elogios, e o seu sorriso mantinha-se preso nas falas padecedoras de sua rotina quase sempre desafortunada. Os abraços e beijos calorosos que recebia de seus ouvintes, pareciam estar na china enquanto ela em sua casa.

Passei a infância tentando decifrar que grito ecoava do seu coração, pois que percebi, não poderia seguir sonhando em ser a versão feminino do inspetor Jacques Clouseau, não era boa detetive. Quando fui ganhado idade, entrei no sistema, e a doce velhinha vitimada era eternamente cuidada. 

Muitos anos depois, fui caçada pelo destino e minha vida tornou-se um arrastar de correntes. Pouco sabia sobre a grande força invicta que paira no ventre feminino, meus dias eram acobertados constantemente pela mesma nuvem escura, por nada, natural ou sobrenatural aquele cenário se desconfiguraria. Estava perdida. A tentação de pular no rio das lamentações, já tanto velejado pelas mulheres da minha família, dominou minhas ações e então, em um aglomerado de madeiras ancestrais coloquei-me nas águas pantanosas. 

A angústia tornou-se minha melhor amiga e como mártires, juntas mendigamos ajuda. Tinha entrado no sistema, que doloroso sistema. O papel de vítima assumiu minhas células como câncer, em alguns meses,estava em quimioterapia.

O tratamento exigiu a mesma coragem de uma inexperiente saltadora ornamental de penhasco, saltos horríveis, pavorosos, quedas que machucavam além da alma, e com o tempo o acessível psiquiatra foi capaz de inspirar meu subconsciente e dele surgiu a tela borrada que apontava o caminho. Havia criado a corrente com elos duplicados, não por mim e sim por padrões, padrões enrugados, secos, assombrados pelo mito vulgar da adequação da mulher.

Por pura sorte, derrotei os inimigos internos que causavam tamanha dissociação, estava livre do auto abuso. Risonha, caminhava para o novo dia, no momento em que começava a chover, lembrei da minha avó. Seus motivos para permanecer no sistema, não eram claros, mas aceitei suas razões, na verdade, descobri, o problema era a sua geração.

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