Um conto de ano novo

by 12/26/2012 0 comentários
Naquela morna manhã, Jorain abriu as velhas e enferrujadas portas do farol, sentou-se na bicuda pedra e esperou, como todos os outros milhares de dias, pelos visitantes. Nada estava fora do lugar, nem o céu acinzentado, nem o azul do mar, muito menos o bafejado vento.

Horas passaram e nada alteraram.

Ao final do dia, pronto e enfadado o franzino homem de cabelos vermelhos e roupas surradas acompanhou o crepúsculo e fechou as velhas e enferrujadas portas do farol. Quando estava prestes para passar as chaves, escutou o piado da coruja.

"Por fim companhia, pensou ele."

Empolgado, tratou de trancas as portas e caminhou com os sapatos nas mãos e sorriso no rosto atrás da coruja. Jorain vagou por toda extensão da praia, vasculhou cada pedregulho, aprofundou-se em cada galho de árvore, mas esmoreceu quando nada encontrou.

- Não pode ser. Tenho certeza que escutei você, afetuosa Coruja. Disparou ele em alta voz.

A Coruja piou pela segunda vez. Jorain voltou a percorrer os mesmos caminhos e a mesma resposta encontrou.

A Coruja piou pela terceira vez. Jorain desistiu de procurar. Ao sair da pequena e reservada praia, soltou:

- Em anos, você misteriosa Coruja é única companhia que tive. Ninguém visita mais o farol, ninguém mais sente o suave toque da pequena onda se desfazendo aos pés da areia, ninguém mais ao por do sol fica a enamorar. Ainda que todo 31/12 a esperança de recomeçar salte da tortuosa fortaleza, a tristeza assumiu meus pensamentos. Você poderia mudar tudo, mas creio que meu destino seja o padecer de comigo mesmo conviver.

Dito suas amarguras, Jorain calçou os sapatos, curvou os ombros e seguiu para o ponto do ônibus quando ao seu lado ouviu a Coruja:

- Não posso mudar tudo, se você nada de concreto quer mudar. Se até você não visita o farol, quem visitará? Estive com você todas as noites, hoje decidir dizer adeus. Por mais que em seu ombro pouse você nunca a cabeça vira.

Na mesma noite, a meia noite e um, Jorain abriu os olhos e para o lado verdadeiramente olhou. A Coruja então desabrochou em um singelo sorriso.

SS Martinelli

S²FM

Pela janela olhei, tulipas não encontrei. Pensei, Filosofei, Bloguei.