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Duas horas, esse era o tempo que ela já estava esperando para consultar o estudado da derme.

A distração na primeira meia hora veio conduzida pelos pensamentos, a da próxima veio conduzida pela irritação, a seguinte pelo aborrecimento.

Quando estava por decretar a completa agonia pela espera, deparou-se com um livro jogado no canto da cadeira, bem atrás da aparentemente mofada almofada.

Curiosa, folheou algumas páginas até esbarrar na seguinte passagem:
- Falemos com mais virtude. O mal é um mal. Não para o mundo, cuja destrutível harmonia ele não destrói, mas para o mau que o pratica e podia deixar de praticá-lo.*

* Trecho do livro Thais, Anatole France, Martin Claret

Logo depois do nascer do sol, ele, que havia permanecido sentado por entre a noite, olhando pela empoeirada fresta da velha janela, regurgitou, em tom quase imperceptível para coisa alguma: 

- Lobo é lobo desde que é lobo. Já o homem, detém a incumbência de não ser homem desde que é homem.

Um homem cansado de sofrer acordou um dia decidido a percorrer centros espirituais em busca de respostas e soluções.

Sua primeira parada, uma igreja. Lá ele assistiu a missa, rezou e ao confessar seus padecimentos recebeu do padre uma lista de rezas.

Dez dias após o termino das rezas, o homem nada havia mudado e decidiu continuar a busca.

Sua segunda parada foi a um templo evangélico. Ele assistiu a pregação, passou pelo ritual de desobsessão e mesmo assim continuou a não entender o motivo de tanto sofrimento.

A terceira e quarta parada foram a centros espirituais, kardecista e umbandista. Um libertou-o mais uma vez de obsessores, o outro mostrou como acalmar as almas perturbadas.

Apesar de se sentir melhor, nenhuma de suas paradas lhe proporcionou o real motivo de seu sofrimento. Ele não acreditava em karma, em espíritos obsessores, em influência do diabo, na culpa de Deus, qual seria então o motivo?

No fim da jornada, com os pés maltratados ele avistou um casebre humilde no meio do nada. Sem segundos pensamentos, o homem bateu a porta. Um senhor de cabeça raspada carregando um cajado abriu-lhe a porta convidando-o a entrar.

O senhor não perguntou quem ele  era e nem não quis saber o porquê estava ali. Em silêncio o homem aceitou a água e pedaço de pão oferecido pelo senhor e logo depois de comer pernoitou em um colchão feito de palha. Ao amanhecer foi acordado pelo toque de um sino.

Desperto e já no caminho da porta o homem agradeceu o senhor pela hospitalidade, este finalizou sua meditação matinal levantou e para o homem disse:

- Não floresce quem não padece.


Pela estreita Janela, a jovem senhora sonhava encontrar o Amor.
Um belo dia, o rotineiro passante perguntou-lhe:
- Senhora, o que faz tanto parada nesta fresta?
A senhora então respondeu:
- Estou à espera do amor.
O passante seguiu seu caminho.
Três anos depois, enfastiado pela mesma paisagem, o passante dirigiu-se novamente a senhora:
 - Senhora pelo que vejo o Amor ainda não lhe deu as caras.
A senhora não se esforçou para responder, apenas olhou com desprezo.
Ele então ofendido alterou o tom ao dizer:
- A senhora é tola, permanece anos e anos na mesma janela esperando algo novo quando é sabido que o repetido nunca terá frescor! A senhora respirou fundo e com delicadeza respondeu:
- Visto que o senhor é perito, me diga, existe diferença entre a mesma janela e o mesmo caminho?
A manhã esperançosa
logo
encontrou a carregada nuvem.
Sem qualquer paciência,
a manhã despistou.
A nuvem chorou
e agora aliviada
Seguiu a vida.
A manhã sentindo-se culpada
terminou o dia arqueada.
Dizia o mestre para um grupo ordenado de turista zen:
- Enquanto o nada é feito, o tudo dominará.
Com ninguém sem imodéstia, o silêncio supostamente afirmativo da compreensão reinou.
O mestre repetiu tal afirmação.
O grupo permaneceu ordenado e em silêncio.
Ao final do dia, o mestre se recolheu.
Durante sua meditação noturna, foi interrompido por um confuso turista.
- Mestre perdoe a intromissão...
O mestre acenou positivamente com a cabeça e o turista então continuou:
- Mestre durante todo o dia não pensei em outra coisa senão em suas palavras. Que ensinamentos teriam elas?
O mestre calmamente olhou para o turista e respondeu:
- Sua atitude revela o seu entendimento.

Em uma tarde nublada, a doce Borboleta acordou e de seu casulo pela primeira vez se distanciou.
A falta de sol e o pesar das novatas asas, não impediram a alegria do novo dia.
Admirada pela exuberância de sua beleza, distraiu-se e ao tentar pousar na flor perdeu o controle e trombou na pequenina Joaninha.
- Ei! Olhe por onde anda!
- Não se ofenda vermelhinha, me distrai.
- Quem se distrai enquanto voa?
- Quem não se distrai enquanto voa?
- Tanto tempo ficou a espera da transformação e ainda assim nada aprendeu. Pensou em voz alta a Joaninha.