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Na loja enfeitada de serpentina, ela entrou e abusou da vontade de pular o carnaval. Comprou tudo e mais um pouco, aqueles quatro dias de feriado seriam os melhores dias de todo o seu ano; com certeza.  

Ansiosa, ela esperava pela folia, como mãe pelo primeiro filho. Os dias foram se tornando noites, noites se tornando em dias, até que, uma semana depois, chegou a hora de esquecer a rotina.  

Bem hidratada, bela e maquiada, juntos com amigas, ela seguiu para bloco.
Sua alegria era contagiante, nem mesmo o furto do seu celular foi capaz de abafar a festa que fazia. 

Os dias passaram e a cada troca de fantasia, ela tentava abstrair a chegada da quarta-feira de cinzas; não ela não vai chegar, tenho certeza.

Mas, como do tempo, ninguém é mestre, quarta-feira de cinzas amanheceu no calendário do mundo entristecendo os corações dos foliões. Ela também foi tomada pela tristeza; que pena, a alegria passa rápido de mais, enquanto a tristeza.... Ah não, não posso deixar acabar, esse ano inteiro vou me fantasiar, vou cair na folia, vou escutar o coração e ser dona da minha própria alegria, cadê a serpentina?!


Publicação original Sweek 
No rosto da minha avó, não estavam presentes somente marcas do tempo, não, o rosto da minha avó era preenchido de sofrimento. Como se no mundo não existisse o verde e o florido, e sim a predominância da cor de terra queimada.

Nos almoços de família, sua única preocupação eram as comidas no fogão, a batata assada de sabor inestimável arrancava elogios, e o seu sorriso mantinha-se preso nas falas padecedoras de sua rotina quase sempre desafortunada. Os abraços e beijos calorosos que recebia de seus ouvintes, pareciam estar na china enquanto ela em sua casa.

Passei a infância tentando decifrar que grito ecoava do seu coração, pois que percebi, não poderia seguir sonhando em ser a versão feminino do inspetor Jacques Clouseau, não era boa detetive. Quando fui ganhado idade, entrei no sistema, e a doce velhinha vitimada era eternamente cuidada. 

Muitos anos depois, fui caçada pelo destino e minha vida tornou-se um arrastar de correntes. Pouco sabia sobre a grande força invicta que paira no ventre feminino, meus dias eram acobertados constantemente pela mesma nuvem escura, por nada, natural ou sobrenatural aquele cenário se desconfiguraria. Estava perdida. A tentação de pular no rio das lamentações, já tanto velejado pelas mulheres da minha família, dominou minhas ações e então, em um aglomerado de madeiras ancestrais coloquei-me nas águas pantanosas. 

A angústia tornou-se minha melhor amiga e como mártires, juntas mendigamos ajuda. Tinha entrado no sistema, que doloroso sistema. O papel de vítima assumiu minhas células como câncer, em alguns meses,estava em quimioterapia.

O tratamento exigiu a mesma coragem de uma inexperiente saltadora ornamental de penhasco, saltos horríveis, pavorosos, quedas que machucavam além da alma, e com o tempo o acessível psiquiatra foi capaz de inspirar meu subconsciente e dele surgiu a tela borrada que apontava o caminho. Havia criado a corrente com elos duplicados, não por mim e sim por padrões, padrões enrugados, secos, assombrados pelo mito vulgar da adequação da mulher.

Por pura sorte, derrotei os inimigos internos que causavam tamanha dissociação, estava livre do auto abuso. Risonha, caminhava para o novo dia, no momento em que começava a chover, lembrei da minha avó. Seus motivos para permanecer no sistema, não eram claros, mas aceitei suas razões, na verdade, descobri, o problema era a sua geração.

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O Destino rei 

Era noite, não como uma, das mil e uma, mas Sherazade, a bailarina, contava sua história enquanto sua alma movia seu corpo ao som do qanun. Tendo o luar como exclusiva companhia, o momento era como pausado no tempo, até que absorvida, não percebeu o quanto seguia e depois de um longo e perfeito deslocamento, seus pés tocaram algo mais permanente, ela cessou os movimentos.

Largado no meio do descampado o punhal jurou que seu antigo companheiro era agora defunto, ele não imaginava que na verdade havia sido esquecido. Tristonho, sentindo-se solitário foi o toque dos pés daquela que bailava que recuperou seu luzente, e o punhal voltou para a companhia da cintura.

Logo depois de topar com o imponente punhal, a bailarina não teve outra escolha senão trazê-lo consigo, afinal ele era por demais elegante para permanecer entre os desmazelados. E assim, com ele enlaçado em sua cintura, continuou a reverenciar o luar.

O grão de café assim que caiu do saco de estopa sabia, tal ação era presente do destino, a felicidade não escondeu a gratidão, mesmo sabendo que algo em troca estava por vir. 
Quando Sherazade pisou no púrpuro grão, foi transformada na mais bela monarca, borboleta.

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Tudo no universo começa com três, não sei dizer o porquê, talvez seja culpa do dúbio, ou quem sabe do paralelo, afinal nada é mais pretensioso do que duas coisas que não se tocam, como a lavanda e o café, a suavidade e o entusiasmo. Se por acaso existissem somente os dois, ela e ele nunca viveriam esse conto de amor.

Todas as manhãs, ela despertava macia, quase tão lenta quanto a pena surfando na brisa, a calmaria exalava por entre sua delicada beleza lilás. Ela passava pelas horas feliz, no entanto, nada sabia sobre o êxtase.

Já para ele, as manhãs eram como as migrações dos gnus, agitadas, animadas, perigosas. Sempre foi concretizador, mas nunca conseguiu experimentar a tão famosa serenidade.

A vida seguiria assim, um em cada ponta do viver, por sorte, ou melhor por mando do grande universo, depois de uma longa noite de calor intenso, o amanhecer recebeu a incomum visita do decidido vento e este arrastou consigo uma pequena porção lilás apenas para entregá-la ao sumo negro postado entre a circular terracota. A infusão de um com o outro provocou tamanho equilíbrio que sua força sucumbi a dualidade, ela e ele aprumaram a trindade e o novo ser aflorou, se apaixonou.

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